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Hoje sou folha

 Fiz ontem 32 anos. A volta do Sol á Áries por trinta e duas vezes aos 18 de abril rememora, por meio do símbolo, o momento do meu começo aqui nesta Terra, neste corpo, nesta consciência. Fui tantas coisas durante esse tempo, mas só agora começo a ser eu mesma, porque começo também a ver  aquilo que desprezei por anos e que para o bem ou para o mal fazem parte de quem sou; e eu não sou tão boa quanto pensava, nem tão ruim quanto já me acusei. Não sou o que pensam de mim, mas também não sou só aquilo que não pensam. Sou todo o amor que dei e o amor que me deram; sou também todo o amor que não pude dar nem receber. Sou minha avó, meu avô, minha mãe e meu pai. Sou eles em mim, mas, sobretudo, sou eu sozinha.  Sou minha busca e o que ainda não sei que sou, mas serei.  A vida é um rio que corre e eu, antes margem, sou a folha que flutua sem saber para onde vai, mas que não amaldiçoa a água que a leva nem a árvore que a deixou, pois importa mais seguir do pensar sobre o po...

Morte e chuva Severina

  Os minutos que antecedem a chuva em um dia quente parecem ser os mais sufocantes. Sentimos não ser possível esquentar para além disso e já esperamos, de alguma forma, que em breve o tempo mudará. E muda. O vento fica mais forte, o cheirinho de terra acentuado e, dentro de instantes, o alívio. O ar ameno nos abraça, a casa escurece, corremos para tirar as roupas estendidas, fechamos algumas janelas; a chuva cai e com sua queda nos ensina. Na perspectiva do que é eterno, a vida é esse instante que antecede o que não conhecemos, mas sentimos. Tudo é uma preparação que acha na morte a possibilidade de existir: pra sempre, de outras formas, ou simplesmente de adentrar este país misterioso que inspirou o tão conhecido monólogo shakespeariano. Talvez por isso a morte seja para mim o grande tema da minha vida. É para ela que caminho e será através dela que chegarei a algum lugar assim que este cumprir comigo o seu propósito. Percebo, assim, na chuva e na morte a linguagem simbólica da ...

Uma linha sobre nós

 Porque você me ama, arrisco ser quem sou. E isso é tudo. 

A cada luz que acendemos no nosso próprio labirinto, é um passo a mais que damos para dentro de nós mesmos

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Já havia lido várias vezes a seguinte frase de Jung, mas só agora entendi realmente o seu sentido: “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino”. Estive doente por uns dias e esse estado – e outros tantos fatores individuais e cósmicos – me fez refletir sobre várias coisas. Em retrospectiva, pensei em como minha vida havia mudado desde o início de 2020 até aqui; como foi difícil, mas também no quanto cresci internamente. Foi quando lembrei da minha escolha do tema do mestrado: a morte. À época, achei a escolha um tanto quanto conveniente, já que o mundo sentia o cheiro da morte ainda mais forte em cada esquina. Depois segui a trilha mental, das coisas que tinha lido depois e até agora e fiquei admirada como tudo fez sentido! “Destino!” – pensei.   Porém, logo em seguida, a frase do Jung veio à minha mente como um raio clareando uma parte da minha escuridão interior.   “É isso! – pensei.   Por anos minhas escolhas f...

Uma quase morte, o balão de luva descartável e o suco de acerola

    Aos cinco anos vivi uma experiência de quase morte. Lembro-me com clareza do dia, em um final de semana, que estava com minhas tias, como de costume, enquanto minha mãe trabalhava. Naquela época, a convivência entre os jovens ainda existia para além das redes sociais e minhas tias – jovens e com os hormônios à flor da pele – aproveitaram para passear nas praças do bairro, local onde a garotada se reunia para paquerar. Como elas deveriam cuidar de mim, fui obrigada a participar deste ritual de iniciação mesmo ainda não estando preparada para ele. Mas algo nesse dia, além da própria situação, não estava muito bem e uma dor muito forte no pé da barriga me incomodava. Essa dor me fazia caminhar com dificuldades, mas caminhar era justamente o que minhas tias queriam. Assim, fui arrastada pelas ruas do Sol Poente até que não aguentei mais e comecei a chorar. Sim, a primeira impressão dessa cena foi a de que eu era uma criança mimada e estava fazendo birra para simplesmente volta...

Happiness is a butterfly

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Desde muito cedo existe em mim uma força que me arrasta com ela e que, ouso dizer, me comanda por sua intensidade arrasadora. É verdade que ao longo dos anos aprendemos a lidar com nossos demônios, mas com alguns deles passamos a vida toda em uma arena de guerra. E aqui está a minha.  É com essa força que piso no campo minado como se estivesse caminhando pela avenida mais segura do mundo; não por coragem - acredito - mas por pura inconsequência e incapacidade, real ou inventada, de ser diferente. Lá vou eu, mais uma vez me jogando em tudo que meu coração não suporta observar à distância. Não, ele precisa da queda para provar sabe-se lá o quê.  No amor, sou como uma criança que acabou de ganhar um presente e não se cansa dele por dias. Obcecada, o desenho sempre em reprise. O problema é que comigo esses dias não terminam: sou assim desde o primeiro "oi" até o último beijo naquela rua fria, em uma cidade igualmente fria e hostil, às 6:50 da manhã que cristalizou, selou com chav...

Veja, tudo se fez novo

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Naquele domingo, o último do mês, as férias haviam acabado e estava pronta para recomeçar. A melancolia desse dia parecia a mesma, tão conhecida minha, ainda que alguma coisa me dissesse que não era igual. Por forças e meios que vão além de mim e que só você e eu saberemos até que a vida acabe e depois dela, por forças do universo conspirando para o bem, você chegou. Já era tarde, ou talvez tarde para mim que durmo – como dizem – com as galinhas. Era tarde e o sono não vinha; descansou de mim, deixou-me ser feliz enquanto eu assim quisesse. Você chegou e algo mudou. Quando a chave do portão girou duas vezes, seu carro parou e o meu coração também. Há algo de mágico em primeiros encontros, pois eles são sempre lembrados como o início de histórias, boas ou más, e histórias são sempre mágicas, pois fazem parte de quem somos. Que olhinhos curiosos, pensei. Eles me olhavam querendo me descobrir, de todas as formas, e isso me causou um sentimento tão gostoso. Talvez fosse vaidade de mu...