Veja, tudo se fez novo
Naquele domingo, o último do mês,
as férias haviam acabado e estava pronta para recomeçar. A melancolia desse dia
parecia a mesma, tão conhecida minha, ainda que alguma coisa me dissesse que
não era igual. Por forças e meios que vão além de mim e que só você e eu
saberemos até que a vida acabe e depois dela, por forças do universo conspirando
para o bem, você chegou.
Já era tarde, ou talvez tarde
para mim que durmo – como dizem – com as galinhas. Era tarde e o sono não vinha;
descansou de mim, deixou-me ser feliz enquanto eu assim quisesse. Você chegou e
algo mudou.
Quando a chave do portão girou
duas vezes, seu carro parou e o meu coração também. Há algo de mágico em primeiros
encontros, pois eles são sempre lembrados como o início de histórias, boas ou
más, e histórias são sempre mágicas, pois fazem parte de quem somos.
Que olhinhos curiosos, pensei. Eles me olhavam querendo me descobrir, de todas as formas, e isso me causou um sentimento tão gostoso. Talvez fosse vaidade de mulher, mas eu estava perdidamente satisfeita com aquela vaidade. Quis que as horas passassem devagar para que o sabor daquele sentimento fosse sentido por todas as minhas células e percorresse todas as minhas veias. Eu quis que aqueles olhinhos me olhassem pelo tempo que eles quisessem. Sou sua, se quiser – pensei – sem exagero nem repressão. Deixem-me ser mulher. Deixem-me sentir orgulho, vaidade e amor. A vulnerabilidade não pode ser motivo de vergonha. Meu cabelo atrás da orelha, meus lábios movimentando e seus olhos, olhinhos, seguindo cada movimento. Que delícia, pensava. Acho que é por isso que as mulheres tendem a lembrar mais do primeiro encontro do que os homens: eles querem conquistar, as mulheres querem perceber como elas são conquistadas.
A prontidão da paixão é assim uma
das coisas mais curiosas para mim. Como duas pessoas que até ontem não se
conheciam podem desejar que dali para frente nenhum outro dia seja vivido sem a
presença ou a promessa da presença do outro? Um viva aos encontros desta vida,
pois eles são catalizadores, a força motriz de nossa existência.
Que curioso pensar como um fim de domingo pode ser feliz. Quem diria.
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