Reflexões sobre o processo de individuação no filme Moana

 


O filme de animação Moana, lançado em 2016 pelos estúdios Walt Disney, conta a história de uma menina – filha do chefe de uma tribo Motonui da Polinésia – escolhida pelo oceano para ser protagonista de uma aventura que deveria reunir uma relíquia mística a uma deusa e, neste processo, passar por diversas adversidades, mas também por um mergulho profundo em sua própria essência.

De início, a narrativa de Moana se desdobra a partir de um roubo feito pelo semideus Maui que, no intuito de presentear os humanos e assim ser amado, rouba o coração da deusa TeFiti – doadora de vida – e logo após entra em conflito com o monstro Te Ka e perde a batalha, perdendo também seu anzol mágico e a pedra pounamu[1], o coração da deusa. Com isso, todas as ilhas criadas por TeFiti foram amaldiçoadas, inclusive a ilha onde um milênio mais tarde nasceria Moana.

Logo nas primeiras cenas, a pequena Moana Waialiki tem seu encontro inicial com o oceano que traz o coração até a menina e em um gesto simbólico marca-a como a escolhida para restaurar a ordem perdida desde o roubo. Moana cresce sem lembrar desse momento, porém sua avó havia visto tudo e sabia o quanto sua neta era especial. Já adolescente, a menina começa a sentir o peso da responsabilidade da sucessão do seu pai como chefe da tribo e tentar fugir disso, pois acredita que seu chamado está para além dos arrecifes e não ali. Mas acaba, porém, sendo levada a ter de agir para ajudar seu povo que estava ficando sem comida na ilha; assim, Moana tenta escapar contra a vontade do seu pai e é surpreendida pela força do mar, voltando desolada. Entretanto, sua avó a apresenta à própria história de seu povo que, um dia, já tinha sido de grandes navegantes, além de dar a Moana o coração da deusa TeFiti, dizendo que a única forma da natureza voltar a dar seus frutos normais seria devolvendo o coração à ilha onde estava a deusa. Então Moana decide partir – agora em um barco maior – para tentar salvar os seus. 

Deste momento em diante, somos levados pela narrativa a acompanhar o trajeto desta menina em sua jornada heroica que a leva, principalmente, para as profundezas do seu ser. Iremos agora analisar alguns desses episódios, em uma perspectiva junguiana sobre o processo de individuação da personagem Moana, que podem nos ajudar a pensar um pouco sobre esse ato continuo que existe também em cada um de nós.

 

A individuação e a religiosidade

 

Do começo ao fim na narrativa de Moana, o aspecto de religiosidade guia o enredo como uma espinha dorsal. Tudo acontece porque uma deusa é impedida de continuar a abundar suas bençãos sobre a Terra, pois um semideus decide favorecer os humanos – tal qual Prometeu[2] – quando na verdade estava levando a maldição para eles. Porém foi a crença na restauração do seu povo, por meio do retorno do coração à deusa, que levou Moana a se aventurar pelo oceano e, por consequência, ao inicio de seu processo de individuação.

Para Jung[3], o sentido de religiosidade tem a ver com a origem latina da palavra religare, a qual nos remete à capacidade humana de religar, conectar diferentes dimensões da personalidade que tendem a se afastar, ou seja, “a religiosidade é, para Jung, a capacidade de religar a dimensão do ego, centro do campo da consciência, à do si mesmo, totalidade psíquica” (VERGUEIRO, 2008, p.121). Uma vez, então, que essas dimensões são integradas é possível que o ego realize as demandas do si mesmo levando à individuação.

Apesar de o contexto de Moana ser o de uma religião específica do povo da Polinésia antiga, o que leva Moana a agir e a desbravar o mar – seu próprio inconsciente[4] – é a fé na palavra da sua avó e nas lendas de seu povo. Não havia nenhum aspecto dogmático, nada da religião sem si que a conduzisse a tal destino. É sobre essa religiosidade que Jung fala ao trazer o assunto da individuação. Desta forma, o psicoterapeuta define individuação como um processo religioso que exige que a vontade do eu se submeta ao si mesmo. Ele diz

“Si-mesmo” é algo que podemos verificar psicologicamente. Nós experimentamos “símbolos do si-mesmo” que não se deixam distinguir dos “símbolos de Deus”. Não posso provar que o si-mesmo e Deus sejam idênticos, mesmo que na prática pareçam idênticos. Naturalmente, individuação é em última análise um processo religioso que exige uma atitude religiosa correspondente – a vontade do eu de submeter-se à vontade de Deus. Para não provocar mal-entendidos digo si-mesmo em vez de Deus. Empiricamente também é mais exato. A psicologia analítica ajuda-nos a conhecer as potencialidades religiosas (JUNG, 2002, p. 432)

 

Isto é precisamente o que a personagem Moana faz: submete-se à vontade divina. A ideia que tinha sobre si, do que eram suas vontades e ambições, estava longe daquela ilha que para a personagem constituía uma prisão. Ela não queria ser a próxima líder do povo, mas ao se permitir cumprir com o decreto dos deuses e ser ela a responsável por levar o coração da deusa TeFiti, a menina transformou-se nessa líder e não só se tornou líder, como também gostou daquele novo eu em ascensão. Esta quase que inevitabilidade que a levou nesta jornada é marcada na letra de uma das músicas que fazem parte do filme. Ela diz: “Aqui sempre, sempre à beira da água/Desde quando me lembro/Não consigo explicar/Tento não causar nenhuma mágoa/Mas sempre volto pra água/Não posso evitar”[5]. Mesmo tentando fugir de si mesmo, Moana não pode evitar que todos os caminhos e dificuldades a levassem para o encontro consigo em sua jornada.

Portanto, desta forma, Moana começa seu processo de individuação que para Jung só ocorre a partir da aceitação, por parte do ego, dessa dimensão da personalidade denominada si mesmo, a qual traz informações simbólicas sobre o caminho da plenitude da personalidade.

 

Entre a luz e a treva na individuação

 

Ao escrever sobre este processo denominado individuação, Jung frisa a importância de percebermos a diferença entre perfeição e totalidade, sendo esta última a meta da dessa jornada.

Do ponto de vista psicológico, a vida de Cristo em nós é idêntica à aspiração do inconsciente à individuação, e isto devido ao fato de a luz de Cristo ser acompanhada pelas “trevas da alma”, da qual fala S. João da Cruz e que os agnósticos de Irineu chamavam “umbra Christi”; estas escuridões são idênticas ao aspecto ctônico do qual já falei. É ele que nos obriga a viver totalmente nossa vida, uma aventura muitas vezes heróica e trágica. Sem erro e sem pecado não há nenhuma experiência de graça, isto é, nenhuma união entre Deus e os homens (JUNG, 2002, p. 435)

 

Sobre este aspecto, é possível identificar no filme Moana, de forma clara, como a luz e a treva interior da personagem agem a todo momento. Mas, por outro lado, há por parte dela um desprezo por aquilo que podemos identificar como sendo sua própria sombra[6]. Durante sua jornada, ela ignora fatos sobre si, pois considera que eles só podem atrapalhar sua meta. Mas é só ao final quando ela é forçada a olhar para si – o que, para mim, é a cena mais rica e simbólica do filme – que sozinha em seu barco, no meio da noite e do oceano, ela olha para as águas e vê a si. Pela primeira vez Moana consegue enxergar quem ela era de fato, com seu bem e mal, e relembra o porquê de estar ali. As águas do inconsciente foram iluminadas e de lá surge o espirito de sua avó – que morrera a pouco – agindo como uma âncora, trazendo a menina de volta para ela mesma.

As mitologias estão repletas destas representações simbólicas da necessidade da descida ao inconsciente para um renascimento e para trazer à consciência assuntos necessários. Por exemplo, na mitologia grega a jovem Perséfone desceu ao Hades e lá obteve sua transformação: “No mito, a virginal Perséfone é raptada para o submundo por Plutão, o deus da Morte. Ela se casa com ele neste lugar e retorna ao mundo muito mudada, não mais uma garotinha, mas uma mulher” (GUTTMAN, 2005, p.70).

Outro exemplo é o da conhecida deusa Ishtar, divindade da Acádia, que ao visitar o submundo – governado por sua irmã Ereshkigal – é morta por sua irmã. Mas, mesmo nesta condição, renasce trocando seu velho corpo por outro. No livro A Iniciação feminina, Sylvia Perera fala de quatro pontos de vistas que esse mito pode ser observado. Para nossa conversa aqui, trago apenas o segundo ponto trazido pela autora que diz o seguinte:

Em segundo lugar, trata-se de um processo de iniciação nos mistérios. Existe uma passagem para dentro e para fora do mundo inferior, mais tarde denominada porta de Inana-Ishtar. Outros que empreenderam a jornada para tornarem-se conscientes do mundo subterrâneo, também foram aconselhados a passar por ela. A passagem de Inana e seus diferentes estágios podem, por isso, oferecer um modelo para a descida em busca de mais vida no abismo da deusa escura e, a seguir, para retornar ao mundo. Inana mostra-nos o caminho, sendo a primeira a sacrificar-se por uma sabedoria feminina profunda, e por redenção. Ela desce, submete-se e morre. Essa abertura a ser trabalhada é o núcleo central da experiência da alma humana, confrontada com o transpessoal. Ela não se baseia na passividade, mas numa disposição ativa de receber (1985, p.23-24)

Moana precisou enxergar sua escuridão e dela retirar forças para seguir sua jornada. Assim também acontece com qualquer um que se dispõe a andar neste caminho da individuação, pois é somente pela aceitação de tudo o que somos que poderemos ser tudo o que devemos ser.

 

Conclusão

Portanto, percebemos que a personagem Moana, a partir dou roubo do coração da deusa TeFiti, foi chamada a salvar seu povo mesmo quando não havia vontade da parte dela em liderá-los como sucessora legítima desse povo. A partir daí, porém, é levada a uma jornada que a principio parecia não ser a sua, mas que provou ser uma jornada necessário para que ela conhecesse e entendesse a si mesmo e, como consequência, pudesse ajudar aqueles que esperavam pelo seu retorno à ilha.

Assim, vimos que essa jornada se assemelha àquela conceituada por Jung como individuação, esta que é a aceitação e submissão do nosso ego à vontade do si mesmo – comparado pelo autor à Deus – sendo esse processo um ato de religiosidade, no sentido que religa nossas partes dissociadas nos esclarecendo sobre qual o sentido da nossa vida e nos conduzindo à plenitude.

Moana, assim como Perséfone e Isthar, precisou encarar sua própria sombra e descer ao inconsciente para de lá sair transformada. Essa é a trajetória que todo aquele que busca com sinceridade melhorar a cada dia e mergulhar neste processo de individuação – que nunca tem fim – deve trilhar.

 

 

Referências

GUTTMAN, Ariel. Astrologia e mitologia: seus arquétipos e a linguagem dos símbolos/Ariel Guttman e Kenneth Johnson; tradução de Julia Vidili - São Paulo: Madras, 2005 il.

JUNG, Carl Gustav. Cartas II. Petrópolis: Vozes, 2002.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Tradução de Dora Ferreira Da Silva, 21.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

PERERA, Sylvia Brinton. Caminho para a iniciação feminina. Trad. Aracéli M. Elman. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.

VERGUEIRO, Paola Vieitas. Jung, entrelinhas: reflexões sobre os fundamentos da teoria junguiana com base no estudo do tema individuação em Cartas. Psicologia: Teoria e Prática – 2008, 10(1):125-143.

 

 

 



[1] Termo pelo qual são chamadas algumas rochas e minerais. Duras e altamente valorizadas, são encontradas no sul da Nova Zelândia. Pounamu é termo na língua maori, a dos povos nativos do país.

[2] Titã da mitologia grega.

[3] Carl Gustav Jung, médico psiquiatra e psicoterapeuta.

[4] Para Jung, o inconsciente pessoal é representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um indivíduo.

[5] Letra da música tocada no filme da Disney.

[6] Jung diz ser a Sombra o centro do Inconsciente Pessoal, sendo aquele material que foi reprimido da consciência pelo medo do não reconhecimento, aceitação, carinho do outro (JUNG, 2008).  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hoje sou folha

Veja, tudo se fez novo