Uma quase morte, o balão de luva descartável e o suco de acerola
Aos
cinco anos vivi uma experiência de quase morte. Lembro-me com clareza do dia, em
um final de semana, que estava com minhas tias, como de costume, enquanto minha
mãe trabalhava. Naquela época, a convivência entre os jovens ainda existia para
além das redes sociais e minhas tias – jovens e com os hormônios à flor da pele
– aproveitaram para passear nas praças do bairro, local onde a garotada se
reunia para paquerar. Como elas deveriam cuidar de mim, fui obrigada a
participar deste ritual de iniciação mesmo ainda não estando preparada para ele.
Mas algo nesse dia, além da própria situação, não estava muito bem e uma dor
muito forte no pé da barriga me incomodava. Essa dor me fazia caminhar com
dificuldades, mas caminhar era justamente o que minhas tias queriam. Assim, fui
arrastada pelas ruas do Sol Poente até que não aguentei mais e comecei a
chorar. Sim, a primeira impressão dessa cena foi a de que eu era uma criança
mimada e estava fazendo birra para simplesmente voltar para casa. Mas logo se
soube que, na verdade, estava tendo uma crise de apendicite e por muito pouco
ela não estourou dentro de mim.
Quando
minha mãe chegou, fomos ao médico que começou a apertar e soltar minha barriga,
perguntando se doía mais quando ele apertava ou quando soltava. Não sei, doía
de qualquer jeito, mas eu disse que era quando ele soltava. E com essa resposta
duvidosa, ele disse que teríamos que operar com urgência. O que se seguiu depois
disso é um pouco confuso na minha memória, mas ela clareia quando, já no
hospital, estava deitada na cadeira de operação e um médico – japonês ou pelo
menos parecendo muito com um – me deu um balão feito com uma luva descartável.
Ele me entregou essa luva e achei o máximo, nem parecia que eu poderia morrer
em poucos minutos. O médico, então, falou que logo, logo eu estaria bem e que
agora eu iria dormir. Assim, em um segundo lá estava eu segurando a luva e minha
inocência; e no momento seguinte tudo escureceu.
Gostaria
de lembrar desses momentos de inconsciência, ver a sala de cirurgia, ouvir o
que os médicos e enfermeiros conversavam. Mas não lembro. Tudo o que sei é que
acordei e vi minha mãe, e também o balão, e estava rodeada por um pano verde sobre
meu corpo magro e pequeno. Não sei quanto tempo fique ali, mas há algo que não
esqueço: quando recebi alta, o médico disse, todo feliz, que eu poderia tomar
um copo de suco – pois estava só a base de soro na veia. Não sei quais eram
minhas opções de sabores, mas escolhi um de acerola. E, por Deus, nunca tomei
um suco tão gostoso em toda minha vida! Provavelmente era um suco normal, mas
para mim que havia acabado de sobreviver a uma morte precoce e passado alguns
dias sem comer nada, aquele suco era o néctar dos deuses.
Aprendi
desde esse momento que as circunstâncias são capazes de alterar as sensações e modificar
a forma que somos afetados pelas situações da vida, e para cada pessoa as
experiências ganham sentidos e significados diferentes, pois cada um de nós
carrega sua própria bagagem que são como temperos para a vida. O que tenho a
contar aqui são os meus temperos e muito provavelmente darão outro sabor àqueles
que os lerem. Porém isso não afeta em nada a forma como podemos compartilhar e
transformar, cada um a sua maneira, o que escrevo aqui. Receba, leitor, o que
te entrego e faça com isso o que bem quiser. Esta é minha alquimia interna e a
forma que encontrei para sobreviver a mim mesma.
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