A vida segue, independente de nós.

 




O despertador tocou porque esquecemos de desligá-lo na noite anterior. Esse sinal, que marca um início de um novo dia em uma semana comum, não pôde ser eficiente daquela vez, pois não havia nada comum. Tudo em nós e naquele quarto era incomum. A vida lá fora começava, algum vizinho esquentava o motor da moto, enquanto uma velha no apartamento ao lado tossia como se não tivesse mais cura. Estava frio, e lembro de ter te olhado por alguns minutos em silêncio, como medo de que qualquer barulho que eu fizesse pudesse levar embora aquele momento e, principalmente, você. Seu rosto estava iluminado e todos aqueles pensamentos apaixonados passavam pela minha cabeça. É claro, eu quis que aquilo se repetisse por muitas manhãs dali para frente; sim, eu já queria isso quando escolhi sair da minha casa e da minha cidade para ir até você. Não sei ser casual, para mim a vida tem uma certa urgência de coisas contínuas.

Você estava dormindo e então levantei para ir ao banheiro, pensando que talvez pudesse fazer algo para salvar o meu rosto amassado e com espinhas, antes que você acordasse. Mas não tinha muito o que fazer. Na verdade, pela primeira vez me recriminei por pensar assim, pois seu olhar nunca foi inquisitivo; pelo contrário, foi sempre caçador. Ele me desejava, urgia por um momento de fraqueza para me atacar. De minha parte, eu ardia em desejos de ser caçada e rendida por você. Foi então que decidi voltar para cama. Dessa vez você percebeu o movimento e abriu os olhos. Tão lindos.

Aquela manhã foi como uma roleta russa nas nossas vidas: podia ser o início de tudo ou apenas uma amostra grátis daquilo que poderíamos ser, se quiséssemos. Poucas vezes na vida torci tanto para que o aspecto bucólico de uma manhã continuasse por mais tempo. Quis que o Sol não esquentasse tanto, que as donas de casa não levantassem para preparar o café da manhã e começassem a fazer barulho com suas panelas. Desejei que as crianças não fossem à escola e que o carro do ovo decidisse passar por outra vizinhança. Tudo isso só para que não tivéssemos que nos mover. Eu sabia que aquele encanto poderia acabar e que você talvez decidisse que tudo voltaria ao normal. Mas depois do extraordinário, desejar o normal é regredir. Eu não queria o normal, queria você. Ainda nos beijamos, por mais um dia e uma noite ficamos juntos. Suas conversas engraçadas e aquele seu corte de cabelo que me lembrava do Turner e o Clarck Kent, de uma só vez, me prenderam e me prendem até agora.

São 00:17 de uma noite a quarenta e seis dias depois desse que acabei de descrever. Penso em você ainda com o mesmo carinho e desejo. Penso em você e riu, lembrando que, pela nossa forma incomum, não poderíamos ter tido um primeiro beijo de outra forma que não aquela que tivemos: com uma pizza na mão, tudo escuro, no meio da escada. Te quero ainda como quis quando as brincadeiras diziam verdades.

O dia seguiu, a moto do vizinho deu partida, a velhinha continuou a tossir e você se foi.

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